quinta-feira, julho 16, 2009

"BRUNA"

Atualmente as produtoras de cinema têm apostado em conteúdos que jamais passariam nas salas há 20 ou 30 anos. Denota-se claramente que a esfera privada tem vindo a ganhar relevância nas Indústrias Culturais. Os vídeos a simular o home made (caseiro), a violência extrema, que só tinha lugar nas mentes mais perversas, a nudez corporal e, claro está, a pornografia, que emerge exponencialmente no espaço público.



Bruno é um filme/documentário de um estilista que viaja pelo mundo à procura de sucesso. A base é simples, o sexo. Não é um filme para entreter (embora pareça) mas sim uma crítica mordaz, com um requinte mórbido à mistura. Temas como a moda, o mediatismo, e a futilidade são abordados sempre com sexo na amálgama. Todo o filme retrata também a geração youtube, a geração que tudo tem instantaneamente, que necessita de doses “vastas e instantâneas” de consumo.

Sendo estes excessos permitidos, o filme torna-se uma marca no cinema, um símbolo da mudança anunciada. Houve realmente filmes de outras épocas física e psicologicamente violentos, como o 120 Dias de Sodoma, de P. Pasolini, e Funny Games, um filme mais recente, entre outros. Contudo Bruno explora o publicamente inconcebivel, como exemplo, explora a pornografia e a homofobia como meras futilidades, onde na realidade são temas evitados e descriminados.

Bruno é um ícone do cinema em mudança, aliás, da sociedade em mudança e em alta velocidade. E a pornografia e o extremismo? São sintomas democráticos, da quebra dos tabus.

sábado, junho 27, 2009

RELATIVIDADE DO BEM E DO MAL

Vamos por a hipótese que existe uma civilização que sabe da existência de Deus, o criador. Num determinado espaço-tempo, esta civilização descobre que Deus está descontente com a criação do Universo e goza de planos para destrui-lo. Perante este facto, a civilização mata Deus e sobrevive.

É interessante reparar que, considerando que o bem prevalece sobre o mal, neste caso hipotético, Deus foi morto para o bem da sobrevivência da civilização. Mas, sendo Deus o senhor criador do bem e do mal, não seria um bem para a razão da existência a destruição do Universo porque Deus estava descontente?

Vendo esta situação ao contrário, veríamos que Deus faria de tudo para que a civilização, imbuída do e pelo mal, não destruísse o Universo. Repara-se que o hipotético mal é concretizado por ambos devido a básicas motivações.

Por fim, chegamos à conclusão que Deus não pode morrer porque o bem tem que prevalecer. Mas não será um bem para esta civilização a morte de Deus?

terça-feira, junho 09, 2009

ELEIÇÕES À DIREITA NA EUROPA


Sinto uma certa preocupação com os últimos resultados das europeias. A direita dominou um pouco por toda a Europa. Em certos casos nos seus extremos, como a Holanda e a Áustria, com partidos como o PVV de Geert Wilders, nacionalista e islamofóbico, que conseguiu 17% e 4 deputados, e o partido nazi de Jubbuk, que conseguiu eleger 3 deputados, respectivamente. Outros casos se revelaram inquietantes, serão eleitos 2 deputados na extrema-direita romena, enquanto os ultranacionalistas e anticiganos eslovacos deverão eleger 1 deputado.

Isto revela que os europeus estão preocupados principalmente com as questões da emigração e, por conseguinte, da segurança privada e também profissional. Não é recente mas põe em causa os cânones da globalização, tão impostos pela União Europeia.

Em Portugal a direita ganhou, porém, a esquerda junta, vai eleger mais deputados. Os dados não são enganadores, o Bloco de Esquerda foi o partido que saiu vencedor porque conseguiu mais do que esperava, eleger 3 deputados e estar à frente da CDU e CDS-PP. Os extremos ficaram-se com a eleição de 2 deputados cada.

Como é hábito, a abstenção predominou. Foi acima dos 50%. São outros dados que se podem explicar por duas vertentes: ou porque revelam um mau estar na opinião dos eleitores perante a governação nos seus respectivos países, ou então por revelarem uma fraca e infundamentada opinião sobre assuntos governamentais; esta última vertente é na minha opinião a mais certa, aliás explicada pelas opiniões populistas sobre as questões da emigração, reflectidas sobretudo nos resultados positivos dos partidos da extrema-direita um pouco por toda a Europa.

sexta-feira, maio 15, 2009

PARANOID PARK (SANT)


Sabemos que por detrás de um filme há sempre um orçamento e um público a atingir. Gus Van Sant sabe-o e, nos seus habituais filmes, repara-se que há uma fuga constante do puro entretenimento. A sua imagética alerta-nos para filmes que não bebem a questão meramente comercial, com a qual a maioria dos produtos cinematográficos se relaciona.

Repara-se também que os valores que Paranoid Park tenta defender são direcionados para um público mais crítico, mais conhecedor e atento. Por sua vez, os críticos de cinema tentaram avaliar este filme com outros olhos, e criticaram-no muito positivamente. Creio, porém, que quantos mais planos alongados e monótonos, tanto mais avaliação positiva se dão aos filmes. Talvez legitime a sabedoria do crítico…

Os planos frontais a seguir o caminhar do protagonista é uma constante e prolongam-se até à exaustão. Julgo que neste filme as partes que G. V. Sant decidiu cortar foram as mais importantes, dando relevo às partes que um habitual realizador cortaria, como o caminhar de 2 minutos de uma sala à outra. Com pouco interesse, realmente. A narrativa é pouco complexa, muito linear e parece-me que existe para suportar a estética, unicamente. Posso tentar entender a existência deste produto cinematográfico tendo em vista a questão da reflexão dos espaços vazios urbanos. Talvez funcionasse melhor se o caminho fosse esse.

domingo, maio 03, 2009

PLANETA ESQUECIDO

Quando a indiferença traz a redundância

Planeta Esquecido, curta-metragem que é uma dissertação sobre a problemática comunicativa que os media proporcionam - a redundância. Será culpa de quem gere a informação ou é culpa da expectativa do espectador? É uma pergunta à qual é difícil de responder.



No segundo aniversário da partida da tripulação para o planeta Alba, o jornal NCI transmite um especial sobre a viagem e sobre a possível descoberta de vida inteligente. Na sua rotina, os espectadores estão indiferentes tanto ao tema como aos argumentos excêntricos do convidado Prof. José Aufhosen, que instalam a confusão na transmissão em directo.

Planeta Esquecido, última curta-metragem feita pelo mesmo grupo da Fracção Autónoma 16, passou no dia 7 de Maio no programa E2 (Escola S. de Comunicação Social), na RTP2.

Para ver: http://www.e2.ipl.pt/e2online/programa163.php#2

quinta-feira, abril 23, 2009

Londres, cidade à escala mundial

Por Inês Ramalhete

Estive em Londres pela primeira vez e a cidade excedeu as minhas espectactivas. Já estive em Nova Iorque e noutras capitais europeias e posso dizer que Londres é a Nova Iorque europeia, a capital europeia. Conjuga o caracter cosmopolita de Nova Iorque, a mescla de culturas (sem nunca perder o british que, por sua vez, se entranhou nessas mesmas culturas), o poder do Estado mas também da População, vivendo em equilibrio.



Oxford street, uma das principais vias da cidade

Londres tem um glamour muito peculiar e, de certo modo, ainda mantém aquele espirito dos anos 60, dos Beatles, da Liberdade, da Diferença, que tão bem podemos ver na famosa Portobello Road, mas também da Vanguarda e da Tradição com a tão querida família real que os britânicos tanto estimam.

Os londrinos e os emigrantes, cada vez menos emigrantes e mais cidadãos do mundo, vivem num balanço perfeito, totalmente introduzidos na sociedade inglesa. Observei esta situação diversas vezes, quando estava num café ou numa loja multinacional e algumas das empregadas eram mulheres árabes, de véu, que nos atendiam atenciosamente, assim como no próprio aeroporto onde tive a oportunidade de ver homens árabes nas alfândegas e mulheres árabes nos balcões do check-in. Demonstrou que os londrinos aceitam a Diferença e as várias Culturas, contrariamente aos americanos, não hostilizando e aceitando-os. Tive também a oportunidade de ver negros, asiáticos, árabes e brancos fazendo parte de um Todo, onde qualquer tipo de relação é possível e é normal. Fiquei contente com esta perspectiva, a perspectiva de que é possível as pessoas viverem com as diferenças. Portugal é um dos países que aceita os emigrantes de braços abertos, mas não os inclui inteiramente na sociedade, até porque a grande maioria é da classe baixa, sem nunca ter a possibilidade de ascender socialmente, vivendo isolados em guetos, olhados com desconfiança.

Tive a oportunidade de ver duas manifestações na zona do Parlamento – uma pelo genocídio das tropas Tamils no Sri Lanka e outra pelos animais – que decorreram durante toda a semana que lá estive. Implacáveis, insistentes, lutadores. Falei com um português a viver em Londres há 24 anos e disse-me que o Estado tem poder, mas a População tem mais e as manifestações e as greves conseguem causar grande impacto a Downing Street (Tony Blair comprovou isso mesmo quando se aliou a Bush).

A cidade é muito bela, preservando ainda os edificios antigos, os grandes boulevards e os jardins belissimos que os londrinos vivem intensamente. Fiquei perplexa com a monumentalidade do Museu Britânico e do seu espólio que, de uma maneira geral, passa por todas as regiões do mundo, por todas as culturas e onde, em apenas uma visita, vemos o Mundo e toda a sua História! Alguns consideram indecente os ingleses terem grande parte do espólio do Egipto Antigo ou da Grécia Clássica, mas o que eu vi foi um grande respeito e cuidado para com estas peças tão importantes do Passado que tantas pessoas desconhecem. Além do conteúdo, o museu é algo de monumental, totalmente ausente da escala humana, feito à medida dos deuses e dos impérios escondidos no seu interior.

Se o Museu Britânico me fascinou pela sua História, a Tate Modern fascinou-me pela sua Vanguarda e também pela própria arquitectura do edificio (uma antiga central electrica na margem sul do Tamisa transformada em museu). A Tate Modern é o símbolo da Modernidade, da Liberdade, dos Valores e do Poder do próprio povo tanto ao nível do edificio como ao nível das várias exposições e dos vários temas que podemos ver no seu interior (há uma exposição muito interessante sobre a Revolução Russa e a própria propaganda da União Soviética).

Tive também a oportunidade de ver um musical – o Fantasma da Ópera – que é algo de imperdivel. Mas tal como disse no início, só visitei Londres e foi isto que senti e que observei, pois talvez o restante Reino Unido não viva esta realidade. Aconselho vivamente!

terça-feira, abril 07, 2009

Aida de Verdi, no Coliseu dos Recreios, pela mão da Grande Ópera de Kazan

A ópera como um espectáculo monumental que combina todas as Artes
Por Inês Ramalhete

A célebre ópera Aida de Verdi, protagonizada pela Grande Ópera de Kazan, Rússia, esteve no Coliseu dos Recreios no início de Abril. Foi a segunda ópera à qual assisti (a primeira, Nabucodonosor, foi também no Coliseu e também de Verdi) e fiquei bem mais fascinada do que da primeira vez! São duas obras-primas, embora Aida me tenha tocado mais a todos os níveis.
Esta obra foi encomendada a Verdi pelo Governo Egípcio com o intuito de comemorar a abertura do canal Suez, com estreia a 24 de Dezembro de 1871. A narrativa passa-se na época do Império Egípcio e conta a história de amor entre Aida, uma escrava etíope (por sua vez princesa do seu país), e um membro do exército egípcio, Radamés. Radamés, negligenciando o amor da princesa egípcia e acusado de traição à pátria, é encarcerado vivo num túmulo, ao qual se junta Aida para a eternidade. A ópera é composta por quatro actos e brilhantemente protagonizada pelos cantores líricos da Grande Ópera de Kazan, na sua maioria de origem russa.
Os cenários exóticos das margens do Nilo foram muito bem conseguidos e dão um ambiente mágico a toda a narrativa, com planos de tal modo bem conseguidos que dão uma enorme sensação de profundidade e monumentalidade, que tão bem caracteriza a arquitectura egípcia da época imperial. Além da beleza extrema do cenário, o vestuário é realmente fantástico e apela ao Belo, ao Místico e à ostentação, deixando o espectador deslumbrado. Mas o que realmente é inexplicável e Belo é o poder da música da orquestra e das vozes dos cantores líricos que tão bem protagonizaram e deram vida a uma narrativa aparentemente banal! Vozes sonantes, tão sonantes quanto os instrumentos musicais, de tal modo adequadas ao ambiente que tanto comove como alegram quem está a assistir, que tão bem transmitem as várias sensações e episódios que se vão desenvolvendo, até ao desenlace em que Aida e Radamés ficam por fim juntos com um misto de dramatismo e felicidade. A música é de tal modo lindíssima que quase entramos num transe, perfeitamente combinada com os actores e com os vários episódios da peça.
A Ópera é algo de inexplicável, as sensações e o ambiente é difícil de transmitir e comunicar ou demonstrar, é realmente necessário uma pessoa ir e guardar para si a experiência. A primeira vez que vi uma ópera, com Nabucodonosor estava reticente, tal como todas as pessoas estão em relação a um espectáculo de tamanha envergadura, mas não me arrependi e repetir a experiência que, por sua vez, ainda me fez achá-la mais fantástica.
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